Manicômios da Mente!

Terça-feira, 18 de Maio de 2021

18 de maio – Dia Nacional da Luta Antimanicomial


Isolamentos, exclusões, maniqueísmos, dissociações, aprisionamentos, repressões, abandonos, castigos, torturas e assassinatos (…) são criações mentais utilizadas contra o que não controlamos, aceitamos, entendemos e conhecemos em nós e nos outros; as estruturas físicas, instrumentos, leis e teorizações que viabilizam suas utilizações só surgem depois.
Frequentemente, avalia-se de maneira superficial, ou parcial, as soluções engendradas para resolver os problemas dos próximos; não raro, o real objetivo é livrar-se dos desconfortos pessoais, sociais, econômicos e culturais que eles acarretam.


Há séculos, manicômios são denominações dos lugares para o tratamento de pessoas que padecem com sintomas associados à doença mental. Como estruturas físicas, eles surgiram na idade média, no seio da cultura árabe; com eles chegaram à Europa e, a partir do século XV, rapidamente proliferaram. No século XVIII, Philippe Pinel, um dos pais da psiquiatria moderna, ordenou que se retirassem os grilhões que prendiam os pacientes nos manicômios; tratados como criminosos, em condições abaixo das dispensadas aos animais de zoológicos.


Em vários lugares e momentos, os manicômios físicos também se transformaram no destino de minorias e de quem se discordava das convicções políticas e religiosas, das orientações sexuais e dos costumes culturais do status quo. Evidentemente, eles fracassaram na tarefa de tratar quem padecia com as dores emocionais. Manicômios físicos são expressões das primitivas soluções das nossas mentes ao estranho, diferente ou não compreendido.


No Brasil, 18 de maio, é a data escolhida para lembrar a Luta Antimanicomial – movimento surgido nos anos 70, que visava combater tratamentos baseados no isolamento e demais práticas que desconsideravam a subjetividade e a liberdade; muitos manicômios brasileiros não eram diferentes dos descritos por Pinel. O desmanche dessas estruturas, por si só, já foi um avanço; contudo, estamos longe de ter encontrado soluções efetivas.
Entretanto, o fim dos manicômios físicos não elimina os mentais, estes sempre estão à espreita; simples ameaças estimulam mutações na forma, mas não na essência. Por exemplo, mesmo nos argumentos sobre os horrores dos manicômios, encontramos posições que negam a existência da doença mental e, consequentemente, a necessidade de certos tratamentos; isto quando não se ataca profissionais que seguem trabalhando de forma intelectualmente honesta e competente em estruturas hospitalares que dão suporte a todos os usuários das novas redes de atendimentos. Ou seja, mais preconceito e sofrimento.


Manicômios nunca mais! Sim! Mas não estariam eles renascendo na multiplicação das comunidades terapêuticas? Muitas vicejam na escassez de alternativas e na falta de compromisso com qualquer embasamento científico. Não seriam as cracolândias os novos manicômios a céu aberto? Quantos estão em presídios ou perambulando pelas ruas ao invés de estarem em tratamento?


Nas últimas semanas, tivemos dois exemplos emblemáticos: a morte de um jovem capturado para ser levado à uma comunidade terapêutica contra sua vontade e o assassinato a golpes de facão de três crianças e duas professoras por um jovem com evidentes problemas psiquiátricos. O passado não é solução; tampouco, o presente oferece amplas e efetivas abordagens.
Não teremos saúde mental – nem enfrentaremos pandemias – se não conseguirmos lidar com as complexidades, os paradoxos, as contradições, o não sabido e o primitivismo das soluções manicomiais de nossas mentes. Para tal fim, é essencial que todos os abnegados profissionais envolvidos com os cuidados em saúde mental se escutem; em especial para entender de onde vem a convicção da razão dos outros, mesmo quando se está em completo desacordo com elas. O colapso na construção de alternativas para o atendimento dos pacientes psiquiátricos não é de matriz diferente da que os leva a adoecer.

Hemerson Ari Mendes
Médico Psiquiatra e Psicanalista

Membro do Departamento de Psiquiatra da Associação Médica de Pelotas (AMP)

 

fonte: AMP

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